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terça-feira, 19 de abril de 2011

Lixo Meu - banalidades sobre o cotidiano

Esse texto foi uma grande brincadeira minha. A começar pelo título: LIXO MEU. Lembro que na época tinha uma novela chamada Sonho Meu. E eu li algo como o fato de terem encontrado uma criança numa lata de lixo e isso foi uma inspiração pra canção-título da novela (uma coisa assim). E essa canção-título era interpretada por Xuxa com José Augusto. E, venhamos e convenhamos, isso já é engraçado. Porque eles cantam muito sérios, acreditando no sonho popular (risos). Então, eu pensei em fazer uma cena bem séria, apesar de o texto ser sobre banalidades do cotidiano. E acredito mesmo que a cena só funciona assim, se for feita de maneira séria, os atores acreditando em cada palavra do que está sendo dito. Tanto que pensei, ao escrever, como se fosse o Tony Ramos e Natália do Valle interpretando a cena. Algo como novela das oito (risos). O texto é bem antigo. De 1993. E entrou no meu espetáculo Quando o amor é um pastel de carne para corações vegetarianos (de 2003).





LIXO MEU  - DE RAUL FRANCO

Música Tenho, com Sidney Magal. Os dois dançam, agarrados a uma vassoura. De repente, encontram-se através do olhar. Cessa a música Tenho. Entra música “Take my breath away”, tema do filme Top Gun. Wagner se aproxima de Vera e a toma nos braços. Olha em seus olhos e as bocas se aproximam. Vera coloca a sua mão na boca de Wagner. Cessa música.

VERA  - Você escovou os dentes hoje?
WAGNER - (meio envergonhado) Não. Eu acordei tarde e ainda não escovei os dentes.
VERA - Eu percebi.
WAGNER - Está tão forte assim?
VERA - Um pouco.
WAGNER - Quem sabe uma balinha não resolva, né?
VERA - Eu acho difícil mas não custa nada tentar.

Wagner coloca uma bala na boca. Tentam se beijar de novo. Wagner tapa o nariz.

WAGNER – Faltou água em casa?
VERA - (desconfiando) Não. Tá tudo normal. Por quê?
WAGNER - Eu acho que eu disfarcei o mau hálito mas você tá com um cheiro intolerável.
VERA - (sem graça) É que eu suo muito. Acho que é problema hormonal.
WAGNER  - Imagina se a gente estivesse fazendo outra coisa.

Os dois soltam um riso sem graça.

WAGNER - Mas deixa eu te dar um abraço (levanta os braços). Quem sabe, eu não consiga abafar o mau cheiro.
VERA - Wagner, você usa desodorantes?
WAGNER  - ( tentando entender o por quê da pergunta) Eu passo perfume nas axilas.
VERA - Descobri que não faz o mesmo efeito.
WAGNER - Como assim?
VERA - Não ficou claro?
WAGNER - Eu não estou entendendo o teor de suas colocações.
VERA - Mas é tão simples que qualquer criança de três anos entenderia.
WAGNER - É melhor você ser clara.
VERA - Você está com um cecê terrível.
WAGNER - (explicando-se) É que eu fui ao Centro no sol quente do meio-dia e peguei um ônibus lotado, depois corri até a Uruguaiana para uma liquidação de toalhas e o sol queimando. Ainda por cima... (interrompe o que está dizendo e aproxima-se de Vera, olhando atentamente para o seu rosto) Você parou de usar os seus cremes da Natura?
VERA - (num susto) Parei. O dinheiro não dava mais para comprar os produtos que estão cada vez mais caros.
WAGNER - Então é por isso.
VERA - Por isso... o quê?
WAGNER - As rugas...
VERA - (assustada) Que rugas?
WAGNER - Na sua cara.
VERA - Mentira.
WAGNER - Verdade. Não podemos tapar o suor com a lixeira. Eu sei que é difícil aceitar que se tem rugas, pés de galinha, papa, enfim, que não se é tão bonita quanto se gostaria, pelo contrário, mais se parece um rinoceronte, um abacaxi e...
VERA - Pára. Não é preciso apelar.
WAGNER  - A gente tem que encarar os fatos, meu amor.
VERA - Mas isso tinha que acontecer justo hoje.
WAGNER - E você tinha que não lavar os olhos.
VERA - O quê?
WAGNER - Eu não quero te dizer isso. É muito duro.
VERA - Já que começamos a conversar abertamente, é melhor você dizer. 
WAGNER - Você não vai gostar...
VERA - (impaciente) Diz logo, Wagner.
WAGNER - Não sei se devo...
VERA - (decidida) Diz ou então me esquece.
WAGNER  - Tá bem. Já que não tenho escolha, eu vou dizer: os seus olhos... os seus olhos estão... cheios de remela.
VERA - Ah, é isso? Eu já sabia. Pensa que eu não me olho no espelho?
WAGNER - E por que não limpou?
VERA - Preguiça. Eu não posso ter preguiça? Eu tenho preguiça também Eu morro de preguiça.
WAGNER - Por preguiça, Vera?
VERA - Eu não tirei a remela dos meus olhos porque eu não quis. Preferi ficar na cama, descansando. Não fui eu quem colocou esta secreção viscosa no meu olho, e além do mais, ela está no meu olho, quietinha, não está incomodando ninguém. O pior é você, que fala com todo mundo sem escovar os dentes. As pessoas queriam ter pregadores em seus narizes, para não sentir o bafo que você tem, a fedentina que sai da sua boca. Sem contar que você peida a noite toda, aqueles peidos sonoros que toda a vizinhança ouve... E agora vem falar da minha remela. Tem dó, Wagner. Você é o maior sujismundo que eu conheço. E tem mais, eu acho que você...
WAGNER - É melhor a gente parar com isso, senão o negócio vai feder. Essa briga não vai levar a lugar nenhum.
VERA - Agora você acha. Quando a sujeira é alheia tudo é festa, não é? Sujeira no corpo dos outros é enfeite, sinal, tatuagem, broche...
WAGNER - Eu disse pra gente parar com essa discussão que já não está cheirando bem. Eu acredito que o nosso amor já está no limite da lixeira. Mas se a gente realmente se ama, a gente deve passar por cima de tudo.
VERA - Por cima do mau cheiro não dá, Wagner.
WAGNER - E as tuas rugas não contam?
VERA - Tá bom. Fecha essa lixeira. Eu tenho uma solução. Que tal se a gente tomar um banho, passar um perfume, escovar os dentes...
WAGNER - Lavar os olhos...
VERA - Então?
WAGNER - Eu acho que a gente deve tentar. Afinal, não existem moscas suficientes para afastar você de mim.
VERA - Isso é poesia, Wagner. Adoro quando você joga limpo comigo. Mas me responde uma coisa: você fecha os olhos pra não ver as minhas rugas, os meus defeitos, as minhas estrias?
WAGNER - Você tem estrias?
VERA - (dengosa) Pára, Wagner. Você sabe que eu tenho.
WAGNER - Juro que eu não sabia.
VERA - Droga. Por que eu fui contar?
WAGNER - Deixa pra lá. Eu acho lindo estrias. Todas as mulheres têm.
VERA - Mentira. A Cláudia Raia, por exemplo, não tem.
WAGNER - É a gente que não vê direito. É truque de televisão. Mas se ela não tem agora, com certeza, vai ter um dia.
VERA - Pôxa, Wagner. Você me faz sentir tão bem.
WAGNER  - Olha, se você quiser, eu fecho os olhos pra não ver nada disso. Fico que nem um ceguinho apaixonado... Mas eu não posso fechar o nariz. Você sabe, a gente precisa de ar pra viver.
VERA - Sei...
WAGNER  - Que tal uma boa ducha para revigorar o nosso amor?
VERA - Excelente idéia.
WAGNER - Vera, tudo isso é por amor?
VERA - Só o amor suportaria isso tudo.

Entra alguma música animada, enquanto acontece uma rápida encenação de que os dois estão tomando banho, esfregando as costas um do outro e passando desodorantes. Os objetos da cena serão retirados par compor um novo quadro.

FIM

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Em frente ao espelho

Eu amo esse texto. E foi baseado mesmo em um fato real! (risos) Eu o escrevi mais ou menos em 1998. E o mais curioso é que muitas mulheres se identificam com ele. Por que será? (mais risos). Ele fez parte da primeira montagem do espetáculo Todo Mundo Amplia a Paranóia que Cria. Mas sempre achei que esse texto funcionaria mais na TV. Tanto que depois acabei substituindo esse texto por outro no espetáculo. Uma curiosidade: como grande parte dos meus personagens femininos, escrevi o texto pensando na atriz Débora Bloch, no seu jeito de falar, nas suas inflexões. Espero que se divirtam!


              

EM FRENTE AO ESPELHO - de Raul Franco
        
Personagens: Mônica e Marcos
Ambiente: Um quarto de motel

Mônica e Marcos estão entrando no quarto de motel, envolvidos em beijos e abraços. De repente, Mônica se vê no espelho. Afasta-se um pouco de Marcos e pergunta.

MÔNICA - Marcos, o que você acha do meu corpo?
MARCOS - Maravilhoso, meu amor.
MÔNICA - Será que eu não engordei um pouco? Eu tô achando os meus seios maiores que o normal. Você gosta de mulher peituda ou mulher com peito normal?
MARCOS - Meu amor, eu gosto dos seus seios. São normais. Cabem na boca, é o que importa.
MÔNICA - Se você tivesse que mudar alguma coisa no seu corpo, o que você mudaria?
MARCOS - Ah, sei lá, Mônica, ainda não parei pra pensar nisso.
MÔNICA - Acho que eu queria ter uma bunda maior. Mais carne, sabe? Você não queria pegar numa bunda maior, assim, sei lá, meio Scheila Carvalho?
MARCOS - A sua bunda é boa, meu amor. O importante é que você se movimenta bem com o pouco que você tem.
MÔNICA - Você acha que eu não tenho bunda?
MARCOS - É uma bunda legal.
MÔNICA - O que é uma bunda legal, Marcos? Eu não entendo essas coisas que homem comenta.
MARCOS - Uma bunda legal é uma bunda legal, meu amor. Não tem como explicar. A sua bunda é ótima. Eu gosto. Isso é o que importa.
MÔNICA - E a minha boca? O que você acha da minha boca?
MARCOS - Ela é uma delícia. Guarda uma língua que faz loucuras.
MÔNICA - Esquece o que tem dentro da boca, a língua vem em segundo plano, todo mundo tem língua. Eu tô falando do desenho da minha boca. Como eu posso te falar...
MARCOS - Com a boca.
MÔNICA - Peraí, não interrompe o meu raciocínio. É que a minha boca parece ser... quer dizer... ela é menor do que essa linha aqui do nariz, ó. Todas as bocas passam essa linha do nariz... Quer dizer, a maioria passa. E fica legal, eu acho que fica um desenho mais bonito. A minha boca parece tão espremidinha dentro dessas duas linhas do nariz. Eu sinto a minha boca tão pequenina. Olha pra ela, o que você acha?
MARCOS - Que viagem estética é essa, Mônica? De onde você tirou todo esse raciocínio diante da linha da boca?
MÔNICA - Marcos, parece que você não entende essas coisas de mulher. Mulher não vive sem espelho. Tire um espelho de uma mulher por um dia, que você a verá enlouquecer... (vira-se e se defronta novamente com o espelho) Olha a minha perna... Eu podia ter uma perna mais grossa, né? Eu não gosto também da minha altura. 1,75 eu acho legal. Eu me sinto meio baixinha, como se eu tivesse o tempo todo uma visão de médio alcance, sabe? Olha a Bárbara. Ela é alta, elegante, tem uma bunda enorme, um pernão... Mas eu gosto do meu cabelo. Ele é meio ressecado, mas eu gosto dele. Eu acho que eu tinha que tratar melhor dele, cê não acha?
MARCOS - Eu acho que você gostaria de ser outra mulher, Mônica. Muito espelho não lhe fez bem, sabia?
MÔNICA - Pelo contrário, eu acho bom a gente se olhar, sim. A gente tem que ter uma visão global nossa, porque a mulher...

Marcos observa um traço na coxa de Mônica.

MARCOS - Mônica, que traço é esse na sua coxa?
MÔNICA – Traço, que traço? (tenta esconder)
MARCOS - Uma coisa bem na altura da... aí, deixa eu ver...
MÔNICA - Não!!! Olha, você quer saber mesmo que traço é esse?
MARCOS - Claro. Eu tô perguntando.
MÔNICA - Eu sei que você tá perguntando. (mostra rápido) Viu, viu o traço? Tá satisfeito agora? Ou quer ver outros traços, ou melhor, buracos, covas na pele da sua namorada, hein?
MARCOS - Eu não tô te entendendo, Mônica.
MÔNICA - Este “traço” que você diz, este bendito traço, é uma estria, tá legal? A minha estria de estimação! Matou a sua curiosidade? Ficou feliz, contente por saber que a sua namorada tem estrias?
MARCOS - Mas qual o mal nisso pra você fazer tanto drama?
MÔNICA - Qual o mal nisso? Você não é mulher pra saber. O que eu sei é que... é que... Poxa, não é legal você saber que eu tenho estrias.
MARCOS - Mônica, isso não importa. A gente fez um amor tão gostoso, isso não interferiu no nosso prazer.
MÔNICA - Você está dizendo isso agora. No começo não interfere, antes de casar principalmente. Depois, não. Vai caindo na intimidade. Quando menos eu esperar, você vai estar rindo das minhas estrias. Olha, Marcos, a gente precisa redefinir a nossa relação, senão, logo, logo, você estará no banheiro comigo quando eu estiver fazendo... fazendo... enfim, as coisas que todo ser humano precisa fazer. Aí, não vai dar.
MARCOS - Mônica, que tempestade em copo d’água é essa?
MÔNICA - Não é tempestade, não, Marcos. Você não é mulher. Tomara que você volte mulher na outra encarnação pra saber o quanto é doloroso ouvir o seu namorado, o seu parceiro sexual perguntando pelas suas estrias. Perde o respeito, perde o tesão.
MARCOS - Porra, que saco isso, hein?
MÔNICA - Eu não fui malhar ontem. Tô me sentindo um lixo hoje, você entende? Agora você vem e fala das minhas estrias.
MARCOS - Eu só perguntei por uma.
MÔNICA - Mas fique logo sabendo que existem outras. Amanhã vou ter que malhar dobrado, ou melhor, triplicado, quer dizer, acho que vou ficar o dia inteiro na academia pra ver se eu recupero a minha auto-estima.
MARCOS - Eu acho melhor a gente ir pra casa.
MÔNICA - É melhor mesmo. Mas tem mais uma coisa: eu não quero mais vir em motel que tenha espelho, entendeu? E se você quiser ficar comigo terá que se acostumar a fazer sexo com pouca luz. Afinal, algo precisa ser preservado. Ou isso ou o final de nossa relação. E mais: vou voltar pro meu analista. E a gente só vai se encontrar daqui a uma semana. Com licença (retira-se para o banheiro)
MARCOS - Eu só perguntei que traço era aquele. Que merda, hein?


FIM


                                                           Copyright 2001 by Raul Franco
Registrado na Biblioteca Nacional
raulfranconeto@gmail.com


sexta-feira, 15 de abril de 2011

Os Dependentes

Mais um texto pra começar bem o dia. Esse texto faz parte do espetáculo Todo Mundo Amplia a Paranóia que cria, que escrevi em 2001. E foi um dos textos que direcionaram as discussões bem humoradas sobre as relações modernas presentes no espetáculo. E, posso dizer, era um dos meus textos favoritos dessa época, porque, com certeza, tem muito do meu jeito de brincar de filosofar acerca de determinados temas. E como complemento desse texto, eu havia escrito um esquete chamado Os Sobreviventes para o mesmo espetáculo. Mas, na montagem final da primeira versão do espetáculo, acabou ficando de fora, devido ao fato de que eu não gostei muito do resultado do texto ao ser encenado. Mas, quem sabe, em breve, eu não o poste aqui. Fiquem agora com os Dependentes! 




OS DEPENDENTES, de Raul Franco

Personagens:  Lucrécio e Gastão. No final, Leila ao telefone.
                          Ambiente: Uma sala de estar.
                          Música: Todo mundo quer amor (Titãs).

Lucrécio está tentando demonstrar uma certa segurança de quem defenderá uma tese, nascida de árduas reflexões acerca do comportamento humano. Sentado numa cadeira está Gastão, lendo jornal. de repente, sua leitura é interrompida pela fala de Lucrécio.

LUCRÉCIO - Estou decidido!

(Gastão tira o jornal da frente de sua cara)

GASTÃO - Está falando comigo?
LUCRÉCIO - Estou falando com quem deseja escutar.
GASTÃO - Mas nesta sala só estou eu.
LUCRÉCIO - Então, você vai ser o destinatário de minhas mensagens.
GASTÃO - Ai, Lucrécio, quando você fala assim é porque vem mais um dos seus insights deslumbrantes.
LUCRÉCIO - Talvez, se você quiser chamar assim. Prefiro entender como uma perturbação poética.
GASTÃO - Dá pra tomar uma água primeiro, antes de começar a falação?
LUCRÉCIO - Esquece água, Gastão, e senta. Ouve, ouve. Presta atenção! Estou tomando uma decisão importante.
GASTÃO - Vai mudar de apartamento? Como eu vou fazer pra pagar o aluguel sozinho, Lucrécio? Tá louco?! Sinto muito, mas você não vai poder sair daqui agora.
LUCRÉCIO - Quando você vai aprender a não se antecipar antes de ouvir o que realmente uma pessoa está querendo falar? Já esqueceu que apressados comem cru? Você jamais daria um bom filósofo.
GASTÃO - Não faço questão. Prefiro continuar sendo um arquiteto. Mas, então, o que é que o grande Sócrates está querendo dizer?
LUCRÉCIO - Eu tomei uma decisão muito importante. Abdicarei da minha vida sexual por um tempo.

       (silêncio)

GASTÃO - É isso que você quer dizer pra mim, em plena sexta, quando o mundo está explodindo na gandaia aí fora? O que eu tenho a ver com isso? Lucrécio, a gente só divide o apartamento. A gente não transa.
LUCRÉCIO - Gastão, a questão é muito mais profunda. Amplia os horizontes. Você sabe que eu sempre fui um cara que tive relações sexuais constantes. Sempre tive mulheres fascinantes em minha vida. Mas quando fui parar pra ficar sozinho é que pude perceber o quanto a gente hipervaloriza o sexo. Eu não transo há um mês e vi que posso ficar muito mais tempo sem transar. Sexo não é tudo na vida.
GASTÃO - Parabéns pela descoberta. E o que eu posso fazer por você?
LUCRÉCIO - Quero que você me ouça apenas. Presta atenção no que eu vou te falar. Você já parou pra pensar no quanto o sexo, o ato sexual, está se banalizando? A gente vive rodeado de erotismo barato, o mundo respira sexo. Tudo é sexo. Sei que antes eu não parava pra pensar muito nisso. Eu também estava mais preocupado em comer alguém no fim de semana, comer alguém, entende? Eu possuía o mesmo desejo que todo adulto e macho possuía. Queremos comer as pessoas. E tudo ficou muito rápido, muito fácil. O próprio diálogo não existe mais. Tudo está muito assim: oi/oi; tudo bem?/ bem; tem uma camisinha?/ tenho; põe?/ ponho; (geme) ai, ui, hum, ahhh... foi bom pra você? Entende?
GASTÃO - Tô começando a entender. Mas me diz uma coisa, Luc, você não tá lendo muita filosofia, não? Nietzsche morreu louco, hein?
LUCRÉCIO - Amplia os horizontes, Gastão, amplia. Isso é um ponto de vista bombástico: todos só querem se comer.
GASTÃO - Agora vou ampliar os horizontes: pra começar, não é a gente que come. A gente é comido. A mulher é que tem a boca. Viu? Também filosofo.
LUCRÉCIO - Parabéns pela sua filosofia de botequin. Bem, mas como eu ia dizendo, acho que a gente vive muito em função do sexo. Essa obsessão do ser humano, essa febre de sexo, inclusive, está levando muitos a se tornarem dependentes. Veja bem: o que poderia nos libertar, está nos oprimindo. Estamos virando escravos do sexo.
GASTÃO - Será? Você não tá pegando muito pesado, não?
LUCRÉCIO - Por incrível que pareça, não. As indústrias do sexo estão aí, lucrando rios de dinheiro, produzindo perturbações sexuais nos indivíduos. É sexo por telefone, via internet, sexo com prostitutas, shows de streap-tease, uma série de bombardeamentos sexuais. E o nosso prazer, onde fica?
Todos de fora - Foi pras cucuias.
LUCRÉCIO - Você não vê essas deturpações sexuais nos nossos dias?
GASTÃO - Sei lá. De repente, vejo, mas ainda não abri os olhos. Quem sabe, eu não esteja também com esta febre de sexo. Muitas vezes já saí de madrugada, louco pra dar uma boa trepada.
LUCRÉCIO - Querendo aquele ciclo do: oi/oi; tudo bem?/ bem; tem uma camisinha?/ tenho; põe?/ponho; ai, ui, hum, ahhh... foi bom pra você? Todos só buscam isso, Gastão.
GASTÃO - Podes crer, Luc. Radiografou as relações.
LUCRÉCIO - Pois é, meu caro, caímos na grande armadilha que o sistema capitalista coloca pra gente: a  escravidão que é escamoteada com uma aparente sensação de liberdade. Às vezes, a gente acha que está se libertando, quando estamos nos encarcerando. Mas isso ia acontecer um dia. (começa a acelerar no raciocínio) Na década de 70, não aconteceu toda uma liberação sexual? Todos transavam com todos, e era o máximo. Bi-sexualismo era a regra. A década de 80 teve um certo freio em função da AIDS. O medo norteava o ato. Tivemos que aprender a transar com camisinha. E a década de 90 foi um hiato, um momento de se pensar em tudo que tinha acontecido em relação ao sexo, por isso se proliferou a indústria do sexo, que se torna mais masturbatório do que carnal. Percebe?
GASTÃO - Sabe que ouvindo você falar, eu tenho uma certa impressão de estar ouvindo o Caetano Veloso complexificando o que poderia ser dito de forma simples. Luc, você é um ótimo Caetano sem sotaque.
LUCRÉCIO - Isso é um elogio ou uma ofensa?
GASTÃO - O que você quiser, querido. O filósofo do caos pós-moderno é você. Você é quem me fala da importância de complexificar pra depois simplificar. Daqui a pouco, quando a gente for curtir uma ondinha, fazer uma viagem, você não vai mais me pedir um baseadinho, vai pedir: me vê um “delta-9-tetrahidrocannabinol”. Aí eu só vou responder: porra, o cara viaja. Mas é isso, cada um amplia o horizonte que tem. 
LUCRÉCIO - Cada um amplia a paranóia que cria. O sexo ‘tá na cabeça. E a gente, às vezes, vive muito em função dele. No fundo, somos os grandes culpados. Nossas frustrações sexuais é que geram todo esse Universo de erotismo exacerbado e desenfreado. Você acha que uma mulher ou um homem se vestem com roupinhas bem coladinhas num fim de semana pra quê? É sexo! Todos querem despertar a libido do outro. A embalagem de um desodorante é sexo. Todo aquele formato cilíndrico, aquele aspecto roliço é para lembrar o nosso órgão sexual. O gozo é na hora que a pessoa aperta o tubo no sovaco: shhhh. 
GASTÃO - Nunca tinha pensado nisso. Até o desodorante, Luc! Quer dizer que o que eu faço é dar uma gozada no sovaco? Podes crer!
LUCRÉCIO - É, mas nem todos têm coragem pra abdicar da vida sexual, nem que seja pra buscarem um certo controle da mente e do corpo. Devíamos todos fazer um excursão ao Tibet. Devíamos meditar porque todos estão muito cegos, embarcando nessa nau do sexo. Terei pena quando eles naufragarem no lodaçal criado por eles mesmos. (suspiro) É, meu amigo, já me sinto melhor, depois do meu orgasmo filosofal. Agora preciso ir para o quarto, os abstêmios dormem cedo, como anjos sem culpas. Good night, meu caro.
GASTÃO - Não vai sair hoje?
LUCRÉCIO - Também já estou fora desta obsessão urbanóide de ser obrigado a sair numa sexta-feira à noite. Deixo isso pra você. (indo para o quarto)
GASTÃO - (sozinho) Ou o cara tá louco ou isso é uma excessiva sobriedade. Também pra quê sair na sexta à noite se ele não quer transar mais? Com certeza, ele vai jogar as suas roupas coladinhas fora. Até passou a minha sede. (senta pra ler jornal) Porra, minhas idéias estão todas perturbadas que eu nem consigo mais ler esse jornal. 

       (Toca o telefone. Leila, namorada de Gastão, está do outro lado da linha)

GASTÃO - Alô?
LEILA - Amor, tô te esperando até agora. Você não disse que ia ligar pra gente sair?
GASTÃO - É que eu tava refletindo.
LEILA - Refletindo em plena sexta, Gastão? Hoje é dia de cair na night.
GASTÃO - Nossa, que antítese chocante.
LEILA - Antí... o quê?
GASTÃO - Antítese: dia e night. Sacou?
LEILA - Continuo nas nuvens, paixão.
GASTÃO - Deixa pra lá. Afinal, a gente namora, não defende tese, não é mesmo?
LEILA - Olha, já separei aquele vestidinho vermelho que você adora. E vou colocar também um batom com sabor de hortelã só pra você tirar.
GASTÃO - ‘Cê tá inspirada, hein, Leila?
LEILA - Você que disse pra eu ficar bem sensual hoje. Tô pronta pro que der e vier.
GASTÃO - Pois é, Leila, esse é o problema. Você tá sempre pronta pro que der e vier. Sabe por quê? (começa a falar de forma acelerada, como um discurso decorado semelhante ao modo como Lucrécio fala) Porque você tá meio escrava dessa obsessão sedutora. Você ainda tá presa nesse fetiche, nessa tendência paranóica de representar mulheres fatais, repletas de batons e roupas que cheiram a um erotismo forjado e patrocinado pelas indústrias da pornografia. Sacou?
LEILA - Ai, será que eu liguei pro Caetano Veloso?
GASTÃO - Eu acho que a nossa relação ainda tá muito pautada no sexo. Existem outras coisas além do sexo. Precisamos olhar além, senão tudo vai se resumir na repetição mecânica e ininterrupta do ciclo do: oi/oi; tudo bem?/bem; tem uma camisinha?/tenho; põe?/ponho; ai, ui, hum, ahhh... foi bom pra você?
LEILA - O que é isso, Gastão?
GASTÃO - É a escravidão, meu amor. Você ainda está embarcando cega nessa nau do sexo.
LEILA - O quê? Você quer anal no sexo? Mas dói muito.
GASTÃO - Olha, vai dormir, Leila, que amanhã eu vou providenciar uma excursão sua para o Tibet. Tá bom? Boa noite!

       Som em off.: puuuuuuuuuuuuuuuuuuuuuu.


FIM

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Passando um carnaval em Salvador


Esse texto eu fiz em 2006 para o espetáculo de esquetes teatrais Tubo de Ensaio, onde eu também participava como ator. Foi feito especialmente para minha amiga Juliana Guimarães, que fazia uma personagem que vivia em seu próprio mundo e era capaz de explodir se alguém pisasse no seu "calo". Depois Juliana continuou fazendo esse texto no espetáculo Pout-PourRir, onde também integrei o elenco.


Passando um Carnaval em Salvador - de Raul Franco

Estava em casa entediada. Estranho! Porque geralmente eu sou uma pessoa animada. Tanto que aceitei o convite de uns amigos para ir até a Bahia em pleno carnaval. Detesto carnaval. Mas fui assim mesmo. Compramos cuscuz, fitas do Senhor do Bonfim e abadás para o bloco da Ivete Sangalo. Detesto Ivete Sangalo. Um fedor de mijo insuportável, um bando de gente fedorenta, bêbada e enlouquecida. Pessoas que ainda estão descobrindo as vogais: aê aê ê ê ê ôôô. Tentei me balançar um pouco pra demonstrar animação. E logo uma fofinha de baby look me disse: “não é assim que se dança”. Eu me esquivei e tentei me retirar dessa esbórnia. Tentei ultrapassar a corda que me enquadrava naquele bloco. E fui impedida pelo cordeiro. (à parte) O cara que segura a corda. Que função bosta, né? Ele disse: “Não pode sair não. Da feita que entrou, não sai”, Tentei falar que eu estava deslocada. Ele disse: “Pensasse antes de entrar”. Resolvi dar um tempo. E quando o cordeiro se distraiu, olhando a bunda da fofinha de baby look. Puta que o pariu! Não resisti. (grito) Arranquei a orelha do cordeiro com uma dentada.  Todo mundo saiu correndo. Pensei: poxa, agora que eu ia começar a me divertir.  

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Até que uma canção nos una


Trecho do espetáculo Quando o amor é um pastel de carne para corações vegetarianos, de Raul Franco



O JANTAR (Até que uma canção nos una)

Os dois chegam ao restaurante.

WAGNER -Vera, os seus olhos... os seus olhos... Eles brilham, ao mesmo tempo, são brilhosos e brilhantes.
VERA - (sem graça) Ai, Wagner, pára.
WAGNER -Ficou vermelha, né?
VERA - Claro.
WAGNER -Gostosa.
VERA - Hã?!
WAGNER - A comida daqui... é muito gostosa...
VERA - Ah, bom!
WAGNER -... também.
VERA - (mudando de assunto) Este restaurante é muito bonito.
WAGNER -Escolhi a dedo. Afinal, é o nosso primeiro jantar.
VERA - Sabe, Wagner, eu estou gostando de te conhecer?
WAGNER - A recíproca é verdadeira. Então, que tal se você me falar um pouco de você?
VERA - Ah, sei lá o que eu posso falar sobre mim. O que você quer saber?
WAGNER -Tudo.
VERA - Tudo?
WAGNER -Tudo o que você quiser falar.
VERA - Por que você não começa? Aí, eu me sinto inspirada e vou poder falar também.
WAGNER -Ah, eu perguntei primeiro.
VERA - Mas você sabe se expressar melhor do que eu.
WAGNER -Que é isso?! É só aparência.
VERA - Então?
WAGNER -Bem, já que é assim, vou falar de mim. Eu levo uma vida normal, regrada, com poucas horas de lazer, afinal, trabalho tenho de sobra.
VERA - E o que você faz nas horas de lazer?
WAGNER -Eu gosto... eu gosto de ler.
VERA - Hum, que interessante! E lê o quê?
WAGNER -Clássicos. Gosto de clássicos. Machado de Assis, Baudelaire, Hemingway...
VERA - E música?
WAGNER - O que é que tem?
VERA - Você gosta de quê?
WAGNER -Clássica.
VERA - Nossa, você é um homem clássico, então?
WAGNER – Classicamente... ou melhor, certamente. Gosto de Vivaldi. Ele me inebria.
VERA - Gosto de Bach.
WAGNER -Ah, um barzinho ao ar livre, beber alguma coisa...?
VERA - Não. Bach, o compositor.
WAGNER -Ah, Bach. Por um instante pensei que você tivesse dito bar. Perdoe-me a minha falta de atenção, é que me envolvi com esse momento inebriante.
VERA - Como se Vivaldi estivesse tocando.
WAGNER -Por quê?
VERA - Você disse que Vivaldi inebria você.
WAGNER -Exatamente, Vivaldi me inebria.
VERA - Sabe, com essa conversa toda, me deu vontade de ouvir um jazz.
WAGNER – Coltrane?
VERA - Coltrane! Nossa, você capta mesmo pensamentos.
WAGNER -Dependendo da ocasião.
VERA - Então, que tal um Coltrane?
WAGNER -Com um bom vinho chileno.
VERA - Bravo pela combinação.
WAGNER -Garçom, a conta, por favor.
VERA - Vamos dividir?
WAGNER -Que é isso? Quem convida é quem paga.

O CLIMA

VERA - Então, depois de ouvirmos muito Coltrane, depois que semanas se passaram e também outros jantares temperados com molho de conversas de bom paladar...
WAGNER -Estamos mais uma vez sentados, apreciando o desenvolvimento de um romance, como um acorde de Vivaldi.

OUTRO JANTAR

WAGNER -Vera, é sempre um prazer jantar com você.
VERA - A recíproca é verdadeira, meu amor.
WAGNER -Que tal, gostou do disco de Bocceli que lhe dei de presente?
VERA - De muito bom gosto. E você, já leu o livro de Garcia Marques que deixei em sua casa?
WAGNER -Naquela noite em que curtimos Coltrane pela vigésima vez? Claro. Um livro muito profundo, de grande sensibilidade. Realmente ele é um grande autor.
VERA - Wagner, será que eu posso lhe fazer uma pergunta?
WAGNER -Claro, afinal já existe uma bonita relação entre nós.
VERA - Você gosta mesmo de mim?
WAGNER -Que pergunta é essa?
VERA - Responde, por favor.
WAGNER -Claro, Vera.
VERA - Nada seria capaz de abalar o seu gostar?
WAGNER – Como?
VERA - Por exemplo, se você descobrisse algo sobre mim que o desagradasse, o que aconteceria?
WAGNER -Como assim?
VERA - Como “como assim”, Wagner? Algo!
WAGNER -Seria bom se você pudesse dizer logo, eu estou ficando nervoso.
VERA - Você ainda não conseguiu perceber?
WAGNER - O quê?
VERA - Olha, Wagner, eu vou ser bem sincera com você, principalmente porque eu já me sinto envolvida nessa relação. Espero que você entenda o meu lado, que você me perdoe.
WAGNER -Eu estou suando frio. Diz logo o que é, Vera? Você me escondeu alguma coisa?
VERA - Pode ser.
WAGNER -Como pode ser? Ou escondeu ou não.
VERA - Tá bom. Escondi. Sei que a gente já conversou bastante, já trocou idéias. Mas eu não posso continuar com essa farsa.
WAGNER -Que farsa?

(Silêncio).

VERA - Eu não entendo nada de música clássica. Só fingi entender porque você parecia falar tão entusiasmado sobre isso, e eu não queria decepcioná-lo, eu queria conquistá-lo, e acho que, de repente, acabei por me envolver demais nessa história, assumindo gostos que, na verdade, nunca tive...
WAGNER -Espera. Você não gosta de música clássica?
VERA - Eu não entendo muito bem aquilo, acho muito esquisito. Prefiro uma outra música que penetre mais fundo no meu ouvido.
WAGNER - Mas quando eu conheci você, eu vi uns discos de clássico na sua casa...
VERA - Era da Cibele, na verdade.

(Wagner fica mudo)

VERA - Eu sei que, de repente, você pode estar dizendo: Que idiota esta mulher. Que burra esta mulher. Que ignorante esta mulher.

(Wagner começa a rir)

VERA - O que é isso, Wagner? Você tá rindo de mim, é? Tá bom, desculpa, mas eu vou me embora, não vou suportar isso.

(Wagner  segura Vera pelas mãos)

WAGNER -Espera. Eu vou explicar. Senta aí, por favor.

(Vera senta)

WAGNER -Eu achei que você gostava de música clássica. Quando olhei pra você a primeira vez, lá no escritório, pensei: Esta mulher é clássica! E, como já disse, quando fui lá no seu apartamento e vi os discos de Vivaldi, Mozart, Beethoven, percebi que realmente você era uma mulher clássica.
VERA - Está decepcionado, não?
WAGNER -Não.
VERA - Não?
WAGNER -Eu também não entendendo muito bem de música clássica.
VERA - O quê?
WAGNER -É uma música que também soa estranho no meu ouvido.
VERA - Wagner, você mentiu pra mim?
WAGNER -Espera aí, você também mentiu.
VERA - Você me deu um disco de Bocceli.
WAGNER -Você não deve ter gostado.
VERA - É que, sinceramente, parece que ele está cantando o tempo todo com dor de barriga. Aquela voz toda desesperada...
WAGNER -Você não gostou, né? Dá pra Cibele. Ela vai adorar.
VERA - Com certeza.

(Os dois começam a rir)

WAGNER -Já que estamos leves, eu também vou fazer uma revelação. Eu nunca li clássicos. Não tenho capacidade de entender Machado de Assis, tampouco Garcia Marques.
VERA - Não? Você falou de uma maneira tão eloqüente que eu disse: Esse cara conhece.
WAGNER -Eu fui muito em bienais e ficava ouvindo o papo das pessoas. Aprendi a improvisar.
VERA - (brincando) Seu cara de pau!
WAGNER -(irônico) Olha o respeito! São anos de observação atenta dos intelectuais e também dos pseudo-intelectuais. É um estudo apurado, minha filha.
VERA - Quando você falou desses autores, eu me senti uma burra total e pensei: O que é que eu vou conversar com esse homem? Então, resolvi pular para o assunto música, e heis que você me vem com Vivaldi. Foi um tapa na minha cara de novo, né? Também tive que improvisar, levando em conta as conversas que eu ouvia da Cibele.
WAGNER -Aquele disco de Coltrane não era seu, né?
VERA - Da Cibele.
WAGNER -Essa Cibele deve ser uma chata.
VERA - Mas você conhecia Coltrane?
WAGNER -Que nada. Ouvi aquele dia em sua casa. Gravei o nome e apliquei.
VERA - Então, na verdade, o que você ouve?
WAGNER -Agora é você que vai me responder primeiro, bonitinha?
VERA - Ah, não, Wagner.
WAGNER -Eu tinha que arrumar uma Bíblia também, pra você pôr a mão em cima e eu ter certeza de que você não mentirá pra mim.
VERA - Eu não vou mentir, eu prometo.
WAGNER -Faz o seguinte, então. Me fala dos seus ídolos de antigamente.
VERA - Ah, Wagner, voltar no tempo e lembrar dos meus gostos musicais antigos?
WAGNER -Exatamente, senhorita. Esse vai ser o jogo.
VERA - Tá bom. Promete que não conta pra ninguém?
WAGNER -Palavra de escoteiro.
VERA - Eu era louca... não vale rir de mim, hein? Eu era louca pela Rosana.
(Wagner começa a rir )
WAGNER - A Rosana. (canta) “Como uma deusa”. É forte, hein?
VERA - Tá vendo, você tá rindo. Então, agora, fala você.
WAGNER -Vou ter que falar mesmo?
VERA - Lógico.
WAGNER -Quando eu era criança, bem pequeno mesmo, quando a gente não tem nada na cabeça...
VERA - Não justifica.
WAGNER -Tá bom. O meu ídolo era o Sidney Magal.
(Vera começa a rir)
VERA - E você ainda teve coragem de rir da minha Rosana. (canta) “Quero vê-la sorrir, quero vê-la cantar...”
WAGNER -Ah, o Sidney Magal era o máximo!
VERA - Não vem me dizer que você também gostava do Menudo.
WAGNER - O Menudo! Agora que você vai rir. Eu tinha um fã-clube do Menudo. “Não se reprima” era o nome.
VERA - Olha, Wagner, você passou dos limites. Se eu não tivesse ainda passado a noite com você, eu ia dizer que você era “viado”.
WAGNER -Que “viado” o quê, menina! Era um fã-clube. E eu era cover do Roby.
VERA - Ah, Wagner, que bom podermos falar a verdade um pro outro, né?
WAGNER -Vamos falar de nós dois agora.
VERA - Ah, eu já me sinto mais Vera. Eu tava me sentindo tão esquisita. Sabe, que nesse momento eu seria capaz de ir para um pagodão e dançar a noite inteira?
WAGNER -São dois, então.
VERA - Mas me fala o que você queria falar.
WAGNER -Antes, deixa eu chamar o garçom.
VERA - Por quê? Já vamos pagar a conta?
WAGNER -É uma surpresa.
VERA - Surpresa?

Wagner chama o garçom e diz um segredo no seu ouvido. De repente, cessa a música clássica

VERA - Ah, Wagner, o que é que vai acontecer?
WAGNER -Deixa eu pegar nas tuas mãos. “Diz pra mim se é você esse alguém que eu tanto quero”.
VERA - Eu já ouvi isso, Wagner.
WAGNER -É Leandro e Leonardo, meu amor.
VERA - Lindo!

Música “Doce mistério” entra ao fundo.

VERA - Wagner, olha a música.
WAGNER - Era essa a surpresa.
VERA - Ah, Wagner , eu ainda não tava me sentindo à vontade para dizer o que vou lhe dizer...
WAGNER - Diz... pra mim.
VERA - Eu te amo!
WAGNER - Poxa. Eu também estou com vontade de lhe dizer isso.
VERA - Então diz... pra mim.
WAGNER - Eu te amo.
VERA - Ai, Wagner .

Wagner a toma nos braços. Aumenta a música. Faz uma menção de que vai beijá-la. Mas a gira, deixando-a cair para o seu extremo.

FIM